Um Dia de Cada Vez

“[Jesus] Quando, pois, soube que Lázaro estava doente, ainda se demorou dois dias no lugar onde estava”. (João 11:6)

Ao encontrar-me com uma amiga que está com cancro, quando lhe pergunto como ela está, obtenho sempre a mesma resposta: “um dia de cada vez, estou a viver um dia de cada vez”. Apesar da sua aparência abatida, duas coisas não lhe faltam: o sorriso na cara e a confiança em Deus.

Na nossa última conversa, ela proferiu a seguinte frase: “Às vezes nós desanimamos ou ficamos ansiosos. Mas onde nós vemos a escuridão, Deus vê a luz. Às vezes não sabemos o que Deus tem para nós, mas, quer vivamos ou morramos, somos do Senhor” [referência a Romanos 14:8].

Quantas vezes desanimamos ou ficamos ansiosos porque não sabemos a próxima etapa da nossa vida? Ou quantas vezes desanimamos ou ficamos ansiosos por não sabermos o desfecho de determinada fase na nossa vida? Desanimamos e ficamos ansiosos e esquecemo-nos da soberania, do poder e do grande amor de Deus que tantas vezes proclamamos com as nossas bocas, mas que não vivemos. Esquecemo-nos que o nosso grande Deus não está sob o tempo, mas sobre ele. Desejamos que Deus faça aquilo que nós queremos no tempo que nós queremos. Quando muitas vezes, os planos dEle para a nossa vida são muito melhores do que aquilo que nós alguma vez pensamos e são revelados no tempo que Ele quer.

Podemos ver a soberania de Deus sobre o tempo, por exemplo, na história de Lázaro e suas irmãs, Maria e Marta, em João 11. Esta era uma família amada por Jesus (Jo 11:5). Mas Jesus, mesmo sabendo que Lázaro estava gravemente doente, em vez de ir apressadamente a Betânia (Jo 11:1), “ainda se demorou dois dias no lugar onde estava” (Jo 11:6). Para Marta e Maria, o melhor teria sido que Jesus tivesse ido imediatamente curar o seu irmão (Jo 11:21,32). No entanto, o plano que Deus tinha para a vida delas e do seu irmão era muito melhor e seria apenas revelado no tempo dEle. Assim, Jesus não curou apenas Lázaro, como as irmãs queriam. Antes ressuscitou-o, pois entretanto Lázaro tinha morrido, e assim Jesus não só aumentou a fé delas, como lhes devolveu o irmão, como também levou a que muitos dos judeus que ali estavam cressem nEle (Jo 11:38-45). Assim, Deus usou aquela família para que o Seu Reino fosse anunciado, porque tudo o aconteceu foi como Ele quis e no Seu tempo e não da maneira e no tempo que Marta e Maria (e os judeus, Jo 11:37) queriam.

A nossa vida não é sobre nós, mas é sobre Cristo. Muitas vezes não sabemos o que Deus tem para as nossas vidas e Ele apenas nos revela o próximo passo no tempo dEle. Contudo, enquanto esperamos, devemos confiar nEle e deixar-nos ser usados por Ele para que o Seu Reino seja anunciado.

Retomando a história da minha amiga que está doente, a nossa conversa terminou com ela a dizer-me o seguinte: “A minha dupla oração é que [através da minha vida e doença] Deus dê fé àqueles que não creem e dê mais firmeza àqueles que já creem”.

Estás tu disposto a confiar em Deus, a não desanimar e a não ficar ansioso, mesmo que as coisas não aconteçam como tu queres, quando tu queres? Estás tu disposto a pedir a Deus que Ele “dê fé àqueles que não creem e dê mais firmeza àqueles que já creem” através das tuas dificuldades?

Deus é Soberano, Todo-Poderoso e Ele ama-te. Não te esqueças disso, mas acima de tudo vive confiando que Deus é mesmo Soberano, Todo-Poderoso e que te ama.

 

Assinado: Uma Jovem da JENO

Considerações sobre o diálogo entre áreas de estudo e Fé – Paulo F. Carvalho

E viu Deus que era bom

Um aspecto que devemos ter em conta e estar alerta, na abordagem que fazemos enquanto cristãos, e que é mais que notória na discussão evangélica (e num maior escopo do cristianismo) em assuntos de matéria interdisciplinar (diálogo da fé com certas áreas de estudo), tem a ver com o modo como intervimos.

Passo a explicar. Ilustramos com o exemplo da educação parental. Apesar de não ser propriamente experiente nestes assuntos (antes pelo contrário, ainda só tenho a categoria de ‘filho’ no CV da vida), podemos separar de modo elementar e genérico a atividade de educação em ativa e reativa. Ativa é aquela que é constante, proativa, busca oportunidades e tem em conta todas as necessidades nas diversas áreas de necessidade e desenvolvimento da criança. A reativa é aquela que é pontual, limitada a um momento específico e que responde apenas a certas deficiências ou necessidades demonstradas por ocasiões de falhas, inatividade ou faltas no comportamento da criança. É a diferença entre ensinar uma criança a ser altruísta e empática no trato com os outros, olhando para o exemplo dos pais, exercitando essa sensibilidade no quotidiano ao lidar com o próximo em contextos multi-culturais, sociais e etários; e exercitar disciplina corretiva (pick yours) quando o filho não quer saber do colega que ficou sem almoço e teima em não partilhar aquilo que trouxe de casa, por exemplo. Entre ensinar o conselho de Deus ao filho de forma progressiva e reagir a uma falha com “Deus não gosta que faças assim”. É verdade que não podemos ser sempre preto no branco, nem levar a dicotomia a extremos. Há momentos para ser reativo e momentos para ser ativo, sendo que se quer os dois ao longo do tempo. Ainda assim, podemos prever com alguma confiança o défice que não existirá primeiro, numa educação ativa que não tem os seus momentos reativa e segundo (creio eu, ainda mais, tendo em conta o que vejo no nosso meio), numa educação que de ativa só tem nulidade e que depende apenas de um moralismo reativo. E é aqui que pegamos para avançar.

Creio que já dá para ver onde isto vai parar quando vamos para o diálogo da fé com as áreas de estudo. O mundo evangélico está cheio de revistas, blogs e apologetas que não fazem mais que desenvolver uma apologia reativa. Tomemos o exemplo da minha área de estudo, as ciências naturais, mais precisamente as ciências biológicas:

Para aqueles que enveredam no campo das ciências e são ‘conservative before it was cool’ (ou seja, não têm medo de manter uma postura ortodoxa quanto às suas crenças), o debate evolução vs criacionismo é uma constante pedra no sapato. É difícil ser um estudante pensante de ciências e frequentar os círculos científico e religioso (no sentido da palavra em latim, religare), neste caso evangélico. Isto porque nos dois lados nos é ensinada uma dicotomia entre fé e razão, ciência e religião.

“Com isto digo que nós evangélicos somos mais pós-modernos do que pensamos. Nós, conservadores que gostamos particularmente de uma abordagem cultural ‘contra o mundo’, caímos na esparrela moderna de achar que a fé é independente da razão e vice-versa. Caímos na dicotomia que Francis Schaeffer tão bem descreve em A morte da razão, uma dicotomia construída ao longo dos séculos na Filosofia (e consequentemente no pensamento e vivência do homem ocidental) entre aquilo que é físico e o que é metafísico, entre o material e o espiritual, entre o natural e o sobrenatural, entre o campo da Graça e o campo da Natureza. A questão não é que estes campos não tenham as suas fronteiras e separações. A questão é que nadámos a favor da corrente moderna de pensar que as primeiras requerem a razão e as segundas a fé – ou, seguindo em frente, a ausência de racionalidade aka irracionalidade. Com o avanço da ciência moderna naturalista, que veio a achar que por conseguirmos prever uma existência mecânica de causas e leis naturais num universo fechado à necessidade da intervenção constante do Divino a mente secular foi ganhado plausibilidade. Se calhar, não precisamos de Deus para a física, para a meteorologia, para a ordem na natureza. Para que é que precisamos de Deus se tudo pode ser previsto mecânica e naturalmente?

Chegando ao séc. XXI, passámos a relegar a pesquisa e o método para as primeiras (aquilo que é natural, visível e físico). Quanto às segundas (sobrenatural, invisível e espiritual), como o interesse não é muito e nem se crê que se possa chegar a uma resposta num campo onde a razão já não entra, então tudo fica relegado à mera subjetividade, ao exercício individual e ao relativismo (e daqui percebemos melhor as origens do ‘cada um tem a sua fé, aquilo em que acredita e ninguém tem nada a ver com isso’).

Se o nosso amigo Kierkegaard se atirasse a um poço escuro no seu salto de fé nós também iríam….? Ups, acontece que também já saltámos. Transformámos a fé em algo fora da nossa realidade, para o qual tens de dar um salto no escuro e não um passo em frente no reconhecimento da realidade em que vivemos aqui e agora. Reconhecemos os segundos fora dos primeiros e não o físico, o material e o natural interligados e como uma manifestação visível de uma realidade transcendente (no sentido que ultrapassa os nossos sentidos e perceções limitados), invisível e não menos real.

Retomando o fio da meada, o que é que isto tem a ver com a relação da fé com a ciência? É ao perceber isto que vou deixar de ter distúrbio de profissionalidade – seja este no meio científico como noutro qualquer – e me dou ao luxo de poder ser um cristão cientista e um cientista cristão. Quando percebo que preciso de integrar a realidade material que estudo na realidade total do cosmos, que também integra uma parte imaterial (coisa que o cientista materialista não irá aceitar).

Relembramos a célebre frase, que “toda a verdade é verdade de Deus”. Quando estudo ciência, não estou (como muitos pensam) a entrar no campo do inimigo. Estou a descobrir mais sobre a realidade, sobre a revelação de Deus ao homem, através da natureza. Permito-me discordar e virar costas a uma abordagem cristã reativa que diz que “a Ciência diz”. A ciência não diz coisa nenhuma. Quem diz alguma coisa é a criação, que fala, ou melhor, berra acerca da existência, terribilidade e beleza de Deus.

Assim, a ciência testemunha (melhor ou pior) desse facto e cabe-nos a nós não cavar mais a dicotomia razão-fé mas o demostrar vivamente do que significa viver neste mundo com os olhos do (e no) porvir, porque esse em certo modo já chegou – ou está chegando (PT-BR detetado). Cremos na graça-comum: que Deus estende a todo o ser humano a curiosidade, a fome de saber e a investigação pela verdade acerca da realidade natural criada. E isso é digno de celebração.

Sendo assim, e aplicando ao contexto de estudo de ciências biológicas, posso fazer algumas perguntas: será que a evolução é património da ciência? Será que a ciência, como demonstração da graça-comum dada ao homem, não é também uma ferramenta dada por Deus? Será que o criacionismo pertence a Génesis? Génesis 1 a 3 é uma dissertação da teoria criacionista, um relato científico das origens, ou o autor divino tem outras intenções e preocupações em mente?

A perniciosidade da teoria evolucionista como divulgada atualmente está no processo, na duração, no mecanismo ou no ponto de partida (aquele naturalista, que diz que o processo é cego, ao acaso e sem propósito)? Será que a abordagem do cientista cristão deve acontecer no embate de mecanismos ou no embate de pressupostos? Vamos continuar a disparar argumentos para a trincheira vizinha em vez de reconhecer que o problema está na mentalidade secular ocidental?

Como vou falar a um amigo ateu acerca disto? Vou obriga-lo a aceitar o criacionismo antes de abraçar a fé? Ou a urgência está em ele reconhecer que o Deus Criador é Soberano sobre a sua criação, que tudo o que parece acontecer ao acaso na verdade permanece e é sustentado por Deus (Col 1.17; Hb 1.3), que a realidade contém o visível e o invisível (Col 1.16), o natural e o sobrenatural; que tudo foi criado por Deus (Gen 1.1) e que a Ele pertencem todas coisas (Rm 11.36)?

Não há porque ir estudar a realidade amedrontado, com medo de conciliar realidades, porque realidade só há uma. Estou a descobrir mais acerca da revelação natural. Estou a conhecer mais acerca da criação de Deus, mesmo que a agenda naturalista me empurre a reconhecer o contrário. Cristãos e cristãozinhos, vamos em frente, porque a investigação faz-se investigando e no fim toda a verdade será sujeita a Ele. No fim, seremos livres do pressuposto (pecado) original, o desejo orgulhoso de uma realidade separada de Deus!

Avante ó crentes investigadores da realidade!

 

Paulo Figueiredo Carvalho