Selvageria, que bênção! – Paulo Figueiredo

Convido-vos a uma leitura do capítulo 4 do livro (profético de Daniel). Estamos perante uma das narrativas proféticas, digamos, mais intensas que encontramos no Velho Testamento, ou não fosse a leitura até aqui (cap.4) cheia de veganismo na mesa de um Rei, sonhos mais elaborados que as visões psicadélicas do Dumbo e estátuas cuja construção tem mais elementos que as exposições da Joana Vasconcelos.

Até aqui Daniel – um jovem de entre muitos de boa aparência, sábio, inteligente e apto ao serviço (Dn 1.3-4) dos trazidos do exílio de Judá na Babilónia – e seus amigos passam um tempo de dieta específica à base de água e legumes, crescendo em conhecimento, cultura e discernimento; Daniel interpreta (pela graça intercedida de Deus) um sonho que exigia explicação e os seus amigos são lançados numa mega fornalha de fogo, de onde saem sem um cabelo fumado sequer – tendo antes passeado no interior juntamente com um “que é semelhante a um filho dos deuses” (3.25b ARA). Antes “quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”; agora “todo […] que disser blasfémia contra o Deus [deles] seja despedaçado”. Num abrir e fechar de fornalha aquele que desafiava agora reverencia o nome do “Altíssimo” (4.2).

Assim chegamos ao capítulo 4. E vamos lê-lo. Já leram? Pois bem. Escrevo isto apenas para que fiquemos por aqui (perdi o jogo).

Eu não sei se já repararam o que se está a passar, antes de mais. Comecemos pela carta enviada aos responsáveis do povo e a todo o povo durante esta época do exílio de Judá:

“Edificai casas e habitai nelas; plantai pomares e comei o seu fruto. Tomai esposas e gerai filhos e filhas, tomai esposas para vossos filhos e dai vossas filhas a maridos […] multiplicai-vos aí e não vos diminuais. Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei e orai por ela ao SENHOR; porque na sua paz vós tereis paz” (Jer 29.5-7 ARA).

Isto é o que está a acontecer: é para crescer e florescer no meio do sofrimento e desterro. Orem pela cidade para que tenham paz. No meio disso a cidade terá paz. Primeiro choque, done. Em vez de ficarem quietos, Deus manda procurar a paz da cidade e orar por ela. Sim, o império que Deus designou para castigar e ferir Judá. Sim, Deus não só usa esta gente para castigar o seu povo como, a caminho de abençoar o povo, abençoa a cidade que os amaldiçoa.

Segundo, não só Nabucodonosor chega a ter uma crónica na primeira pessoa no Livro da Vida (aka Palavra de Deus) como a vida selvagem lhe passa na frente dos olhos. O REI PAGÃO DA BABILÓNIA ESTÁ A RECEBER SONHOS, INCURSÕES E INVESTIMENTOS DO REI ALTÍSSIMO. O Rei usado para castigar o povo está a ser um investimento do próprio Deus. Aquele que “dá [o governo] a quem quer” (Dn 4.25) não só recebe sonhos misteriosos como os entende e experimenta.

Ao compreender isto, talvez possamos até nos compadecer do Rei e chegar ao vs.27 esperando que nada lhe aconteça. No capítulo anterior ele temeu a Deus, no início deste capítulo ele profere uma pequena doxologia (“Quão grandes são os seus sinais, e quão poderosas, as suas maravilhas! O seu reino é reino sempiterno, e o seu domínio, de geração em geração” (4.3)). Talvez Deus abrande e se contenha. Talvez não. E não.

 

“Não é esta a grande Babilónia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para a glória da minha majestade?”. Pronto, já foste. No momento em que pensou que valia muito, a nossa esperança de que passasse em branco não lhe valeu de nada. Nabucodonosor chegou ao fundo, e nós chegamos ao fundo da questão. Tudo isto foi para que “aprendas que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer”. O orgulho afundou-o na selvageria em que já se encontrava.

Nabucodonosor viveu-as, e o tempo passou-lhe à frente. Viveu como um animal, pensou como um animal, comeu como um animal, passou frio como qualquer animal e teve todo o seu corpo alterado na semelhança de vários animais.

Espero que tenham lido. É que isto é mesmo horrivelmente belo e estrondoso.

 

Para mim isto deixou de ser cómico há muito tempo. É poético mas horrível. Humano no orgulho, animal na consequência.

Agora paramos.

 

O tempo passou e Nabucodonosor percebeu.

 

Vamos deixar que seja ele a dirigir-nos:

ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre,

                               cujo domínio é sempiterno,

                                               e cujo reino é de geração em geração.

                               todos os moradores da terra são por ele reputados em nada;

                                               e, segundo a sua vontade, ele opera com

                                                               o exército do céu

                                                               e os moradores da terra;

                               não há quem lhe possa deter a mão,

                                               nem lhe dizer: Que fazes? (4.34-35 ARA)[1]

 

Até aqui podíamos achar: “Bem, foi apenas para aquele fim, Nabucodonosor é apenas um meio para a história do povo de Deus.” No entanto, creio que devemos chegar à conclusão de que a revelação que ele obteve até chegar ao fim do capítulo 4 foi tão grande e tão necessária a nós que Nabucodonosor é não só instrumental para o povo como também foi abençoado com a selvageria por que passou.

 

Somos adeptos das discussões e dos debates que produzem frutos e anseiam por bons esclarecimento. E isso é muito bom. Mas se ficar por aí que Deus nos mande para a selvageria. Se Deus não for o objeto da nossa adoração (não a discussão, não a ortodoxia perfeita, não a sensibilidade, não a não-ofensa), estamos mal; estamos na lama. Pois bem, paremos um pouco. Poisemos as canetas, independentemente de como esteja a formulação. Paremos a discussão. Abrandemos. . . . . .  . .  . .  .   .   .   .   .    .      .       .        .          .          .           .            .  Lê outra vez  o que ele diz.                         .

 

Aquele que se senta nos céus e ri e faz tudo o que lhe apraz

Que governa os governos, e estabelece reis,

O Príncipe da Paz que procede sobre profetas, presidentes e sacerdotes

A fonte última de autoridade que rege com misericórdia e graça

Mas o homem reduz este atributo a um debate insensato[2].

 

Independentemente da tua posição, opinião, situação familiar, social, escolar, precisas de reconhecer isto. Eu preciso de reconhecer isto:

 

É acerca de Deus. TUDO. Tudo é acerca de Deus.

No fim de contas, Deus é tudo o que importa. Que o homem seja nada para que Deus seja tudo.

É isto que falhamos em perceber e lembrar diariamente. Tudo é acerca de Deus.

 

Tornemos a confissão de Nabucodonosor a nossa oração. Sejas tu Deus o primeiro e eu o último. Sejas tu honrado e eu seja nada. Tua é a Glória. É a ti que quero. Dá-me a selvageria se for preciso, porque ela me será por benção. Se eu te puder ver. Se eu puder abrir os meus olhos à bela, suprema, ofuscante e aterradora Glória.

 

“Agora, pois, eu, [leitor], louvo, exalto e glorifico ao Rei do céu, porque todas as suas obras são verdadeiras, e os seus caminhos, justos, e pode humilhar aos que andam na soberba” (4.37).

Assim seja, SENHOR. És a nossa única esperança. Humilha-nos debaixo da tua mão que ninguém pode deter. Faz aquilo que ninguém pode questionar. Dá o entendimento que sem ti ninguém pode ter. Leva-me à presença dAquele que se faz presente. O Supremo. Cristo. Até que eu te veja face a face, vai mostrando mais deste mistério, deste sonho: de “fazer convergir em ti, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Ef 1.10).

 

[1] Disposição das orações inspirada na ESV Reader’s Version. Vale a pena ler a tradução conseguida pela English Standart Version (ESV).

[2] Tradução minha de excerto de música “Sovereign” de Beautiful Eulogy.

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