Considerações sobre o diálogo entre áreas de estudo e Fé – Paulo F. Carvalho

E viu Deus que era bom Um aspecto que devemos ter em conta e estar alerta, na abordagem que fazemos enquanto cristãos, e que é mais que notória na discussão evangélica (e num maior escopo do cristianismo) em assuntos de matéria interdisciplinar (diálogo da fé com certas áreas de estudo), tem a ver com o modo como intervimos. Passo a explicar. Ilustramos com o exemplo da educação parental. Apesar de não ser propriamente experiente nestes assuntos (antes pelo contrário, ainda só tenho a categoria de ‘filho’ no CV da vida), podemos separar de modo elementar e genérico a atividade de educação em ativa e reativa. Ativa é aquela que é constante, proativa, busca oportunidades e tem em conta todas as necessidades nas diversas áreas de necessidade e desenvolvimento da criança. A reativa é aquela que é pontual, limitada a um momento específico e que responde apenas a certas deficiências ou necessidades demonstradas por ocasiões de falhas, inatividade ou faltas no comportamento da criança. É a diferença entre ensinar uma criança a ser altruísta e empática no trato com os outros, olhando para o exemplo dos pais, exercitando essa sensibilidade no quotidiano ao lidar com o próximo em contextos multi-culturais, sociais e etários; e exercitar disciplina corretiva (pick yours) quando o filho não quer saber do colega que ficou sem almoço e teima em não partilhar aquilo que trouxe de casa, por exemplo. Entre ensinar o conselho de Deus ao filho de forma progressiva e reagir a uma falha com “Deus não gosta que faças assim”. É verdade que não podemos ser sempre preto no branco, nem levar a dicotomia a extremos. Há momentos para ser reativo e momentos para ser ativo, sendo que se quer os dois ao longo do tempo. Ainda assim, podemos prever com alguma confiança o défice que não existirá primeiro, numa educação ativa que não tem os seus momentos reativa e segundo (creio eu, ainda mais, tendo em conta o que vejo no nosso meio), numa educação que de ativa só tem nulidade e que depende apenas de um moralismo reativo. E é aqui que pegamos para avançar. Creio que já dá para ver onde isto vai parar quando vamos para o diálogo da fé com as áreas de estudo. O mundo evangélico está cheio de revistas, blogs e apologetas que não fazem mais que desenvolver uma apologia reativa. Tomemos o exemplo da minha área de estudo, as ciências naturais, mais precisamente as ciências biológicas: Para aqueles que enveredam no campo das ciências e são ‘conservative before it was cool’ (ou seja, não têm medo de manter uma postura ortodoxa quanto às suas crenças), o debate evolução vs criacionismo é uma constante pedra no sapato. É difícil ser um estudante pensante de ciências e frequentar os círculos científico e religioso (no sentido da palavra em latim, religare), neste caso evangélico. Isto porque nos dois lados nos é ensinada uma dicotomia entre fé e razão, ciência e religião. "Com isto digo que nós evangélicos somos mais pós-modernos do que pensamos. Nós, conservadores que gostamos particularmente de uma abordagem cultural ‘contra o mundo’, caímos na esparrela moderna de achar que a fé é independente da razão e vice-versa. Caímos na dicotomia que Francis Schaeffer tão bem descreve em A morte da razão, uma dicotomia construída ao longo dos séculos na Filosofia (e consequentemente no pensamento e vivência do homem ocidental) entre aquilo que é físico e o que é metafísico, entre o material e o espiritual, entre o natural e o sobrenatural, entre o campo da Graça e o campo da Natureza. A questão não é que estes campos não tenham as suas fronteiras e separações. A questão é que nadámos a favor da corrente moderna de pensar que as primeiras requerem a razão e as segundas a fé – ou, seguindo em frente, a ausência de racionalidade aka irracionalidade. Com o avanço da ciência moderna naturalista, que veio a achar que por conseguirmos prever uma existência mecânica de causas e leis naturais num universo fechado à necessidade da intervenção constante do Divino a mente secular foi ganhado plausibilidade. Se calhar, não precisamos de Deus para a física, para a meteorologia, para a ordem na natureza. Para que é que precisamos de Deus se tudo pode ser previsto mecânica e naturalmente? Chegando ao séc. XXI, passámos a relegar a pesquisa e o método para as primeiras (aquilo que é natural, visível e físico). Quanto às segundas (sobrenatural, invisível e espiritual), como o interesse não é muito e nem se crê que se possa chegar a uma resposta num campo onde a razão já não entra, então tudo fica relegado à mera subjetividade, ao exercício individual e ao relativismo (e daqui percebemos melhor as origens do ‘cada um tem a sua fé, aquilo em que acredita e ninguém tem nada a ver com isso’). Se o nosso amigo Kierkegaard se atirasse a um poço escuro no seu salto de fé nós também iríam….? Ups, acontece que também já saltámos. Transformámos a fé em algo fora da nossa realidade, para o qual tens de dar um salto no escuro e não um passo em frente no reconhecimento da realidade em que vivemos aqui e agora. Reconhecemos os segundos fora dos primeiros e não o físico, o material e o natural interligados e como uma manifestação visível de uma realidade transcendente (no sentido que ultrapassa os nossos sentidos e perceções limitados), invisível e não menos real. Retomando o fio da meada, o que é que isto tem a ver com a relação da fé com a ciência? É ao perceber isto que vou deixar de ter distúrbio de profissionalidade – seja este no meio científico como noutro qualquer – e me dou ao luxo de poder ser um cristão cientista e um cientista cristão. Quando percebo que preciso de integrar a realidade material que estudo na realidade total do cosmos, que também integra uma parte imaterial (coisa que o cientista materialista não irá aceitar). Relembramos a célebre frase, que “toda a verdade é verdade de Deus”. Quando estudo ciência, não estou (como muitos pensam) a entrar no campo do inimigo. Estou a descobrir mais sobre a realidade, sobre a revelação de Deus ao homem, através da natureza. Permito-me discordar e virar costas a uma abordagem cristã reativa que diz que “a Ciência diz”. A ciência não diz coisa nenhuma. Quem diz alguma coisa é a criação, que fala, ou melhor, berra acerca da existência, terribilidade e beleza de Deus. Assim, a ciência testemunha (melhor ou pior) desse facto e cabe-nos a nós não cavar mais a dicotomia razão-fé mas o demostrar vivamente do que significa viver neste mundo com os olhos do (e no) porvir, porque esse em certo modo já chegou - ou está chegando (PT-BR detetado). Cremos na graça-comum: que Deus estende a todo o ser humano a curiosidade, a fome de saber e a investigação pela verdade acerca da realidade natural criada. E isso é digno de celebração. Sendo assim, e aplicando ao contexto de estudo de ciências biológicas, posso fazer algumas perguntas: será que a evolução é património da ciência? Será que a ciência, como demonstração da graça-comum dada ao homem, não é também uma ferramenta dada por Deus? Será que o criacionismo pertence a Génesis? Génesis 1 a 3 é uma dissertação da teoria criacionista, um relato científico das origens, ou o autor divino tem outras intenções e preocupações em mente? A perniciosidade da teoria evolucionista como divulgada atualmente está no processo, na duração, no mecanismo ou no ponto de partida (aquele naturalista, que diz que o processo é cego, ao acaso e sem propósito)? Será que a abordagem do cientista cristão deve acontecer no embate de mecanismos ou no embate de pressupostos? Vamos continuar a disparar argumentos para a trincheira vizinha em vez de reconhecer que o problema está na mentalidade secular ocidental? Como vou falar a um amigo ateu acerca disto? Vou obriga-lo a aceitar o criacionismo antes de abraçar a fé? Ou a urgência está em ele reconhecer que o Deus Criador é Soberano sobre a sua criação, que tudo o que parece acontecer ao acaso na verdade permanece e é sustentado por Deus (Col 1.17; Hb 1.3), que a realidade contém o visível e o invisível (Col 1.16), o natural e o sobrenatural; que tudo foi criado por Deus (Gen 1.1) e que a Ele pertencem todas coisas (Rm 11.36)? Não há porque ir estudar a realidade amedrontado, com medo de conciliar realidades, porque realidade só há uma. Estou a descobrir mais acerca da revelação natural. Estou a conhecer mais acerca da criação de Deus, mesmo que a agenda naturalista me empurre a reconhecer o contrário. Cristãos e cristãozinhos, vamos em frente, porque a investigação faz-se investigando e no fim toda a verdade será sujeita a Ele. No fim, seremos livres do pressuposto (pecado) original, o desejo orgulhoso de uma realidade separada de Deus! Avante ó crentes investigadores da realidade!   Paulo Figueiredo Carvalho

Deus Todo-Poderoso limitado pela minha fé

“Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes: Ergue-te, e precipita-te no mar, assim será feito; E, tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis.” (Mateus 21:21-22). Helen Roseveare (1925-2016) foi uma missionária inglesa que serviu a Deus no Congo como médica. Num dos seus relatos sobre a sua experiência, Helen disse o seguinte: “Uma mulher morreu ao dar à luz, deixando um recém-nascido prematuro e uma menina de dois anos.” No dia seguinte a esse acontecimento, visitou um orfanato e contou às crianças que era necessário uma botija de água quente para aquecer aquele bebé. Nesse momento, uma menina de dez anos chamada Ruth orou: “Deus, por favor… envie-nos uma bolsa de água quente. Não será bom amanhã, Deus, porque o bebé já estará morto, então, por favor, mande uma nessa tarde… E enquanto se encarrega disso, o Senhor, por favor, enviaria uma boneca para a menininha? Assim ela saberá que o Senhor realmente a ama.” Helen não acreditou que aquela oração fosse respondida. Mas, naquela tarde, recebeu uma encomenda do Reino Unido que não só continha uma “bolsa de borracha para água quente” como também… tinha uma boneca.[1] Ao ler esta história pensei que muitas vezes a nossa fé é mais pequena que um grão de mostarda e que às vezes o nosso bom Deus envia uma criança às nossas vidas para nos fazer confiar mais nEle. “Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes: Ergue-te, e precipita-te no mar, assim será feito; E, tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis.” (Mateus 21:21-22). Quantas vezes já oraste pensado que Deus não iria responder à tua oração? Quantas vezes não expuseste os teus pensamentos a Deus, porque achaste que Ele não os iria responder e, por isso, não era necessário gastar tempo com esses pedidos? Quantas vezes já duvidaste do poder do nosso Deus Todo-Poderoso que derrotou a morte e o pecado ao enviar o Seu Filho que morreu e ressuscitou em nosso lugar? Sê genuíno perante Deus e confia-Lhe todos os teus desejos e ansiedades, mesmo que aos teus próprios olhos pareçam impossíveis, e deixa que Ele evidencie mais da Sua glória a ti e aos que te rodeiam. [1] Piper, Noël. Mulheres Fiéis e Seu Deus Maravilhoso: Histórias de Cinco Mulheres de Fé. SP-São José dos Campos: Editora Fiel, 2005. Pp. 182-183. Texto de uma jovem da JENO.

Conhecer e Obedecer – David Vieira de Campos

A vida cristã inicia-se quando o homem natural é salvo em Jesus Cristo, e se torna detentor da vida eterna. Um equívoco para muitos cristãos é associar a vida eterna apenas à vida pós-morte física. Tal equívoco denota falta de conhecimento, pois o próprio Senhor Jesus nos revela "Eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância." João 10:10. Esta vida proposta por Jesus Cristo começa ainda neste mundo, após a conversão, e durará eternamente. Ainda sobre a mesma Jesus nos revelou em que consiste "E a vida eterna é esta: que te conheçam a Ti, o Único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste." João 17:3. Ora, esta faceta da caminhada cristã é - tristemente - tantas vezes negligenciada. Infelizmente é frequente constatar que existem crentes que frequentam as congregações locais há décadas tendo no entanto muito pouco conhecimento de quem Deus é, e por conseguinte um fraco e superficial relacionamento com Ele. Também quanto a isso a Palavra de Deus nos indica que "O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento..." Oséias 4:6. É portanto da maior importância que possamos conhecer Deus, antes de tudo o resto. Sem que conheçamos Deus, sem que tenhamos um relacionamento pessoal, íntimo e directo com Ele, é impossível agradar-Lhe.   Colocado este pilar fundamental, a saber; conhecer Deus, e decorrendo desse mesmo, impõe-se um outro de extrema importância: Obedecer-Lhe. De facto por falta de conhecimento ou então de entendimento constatamos tantas vezes uma compreensão equivocada daquilo que significa o Reino de Deus e fazer parte desse Reino. Ao contrário das monarquia terrestres modernas, este é um reino em que O Soberano tem forçosamente que exercer a Sua Soberania, em que cabem a Ele o trono e as decisões sobre nós mesmo e a nós simplesmente nos cabe obedecer. Faz não muito tempo ouvia um irmão de origem Africana, que é responsável de uma igreja na Europa mas ainda tem contacto regular e presencial com igrejas locais em África, fazer a seguinte observação: a Igreja na Europa, outrora origem de missionários usados por Deus para levar o Evangelho a todo o mundo, de um modo geral, está hoje demasiado acomodada e busca demais a sua própria estabilidade e conforto. Perdeu-se algures nas últimas décadas o sentido de obediência a Deus sem excitações e por conseguinte aos ensinamentos bíblicos. E este amado irmão dava exemplos e fazia o contraponto com a igreja em África, no Médio Oriente e na Ásia. De facto em quaisquer dessas latitudes é difícil a um Cristão verdadeiro buscar conforto material e/ou social, restando apenas a escolha clara e simples entre obedecer ou não aos ensinamentos bíblicos, tantas vezes, como sabemos, colocando em risco a sua própria vida. Desde logo obedecer ao chamado do Salvador "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.” Mateus 11:28-29, passando pela grande comissão, não descorando o batismo nas águas "Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.” Marcos 16:15-16. Mas além destes também tantos outros mandamentos práticos, descritos pela Palavra de Deus, da observação dos quais Jesus declara "Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando." João 15:14.   A carta aos Efésios nos ensina que "Pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus Não vem das obras, para que ninguém se glorie; Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas." Efésios 2:9-10. Muito haveria para analisar e escrever sobre este texto, mas mesmo a sua mais simples e directa leitura nos permite perceber inequivocamente que somos salvos (não só mas também) para andar em boas obras, as quais Deus já preparou para que andássemos nelas. Tal ensino é corroborado e complementado na carta de Paulo aos Romanos quando diz "Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus." Romanos 12:1-2. Este sacrifício dos nossos corpos é, antes de mais, um sacrifício de obediência em detrimento de nós mesmos, das nossas vontades e/ou prazeres e conforto. "Porém Samuel disse: Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros." I Samuel 15:22.   Por essa razão creio ser pertinente esta análise e subsequente chamada de atenção. A ilustração que vem à minha mente ao pensar nestes dois conceitos é a de duas pernas com as quais caminhamos na vida cristã. Uma é o conhecimento, a outra é a obediência. Se tentarmos caminhar apenas com uma delas não iremos muito longe (se chegarmos mesmo a sair do ponto de partida). Se descorar-mos uma das duas, o nosso caminhar será debilitado, como em uma brincadeira de criança em que andamos "ao pé-coxinho". Esta ideia pode parecer risível, mas talvez seja mais presente do que muitas vezes imaginamos. Cabe a cada um de nós analisar-se a si mesmo à luz da Palavra de Deus e em espírito de oração perceber até que ponto está ou não a caminhar a vida cristã em bom equilíbrio, fazendo uso de ambas as pernas, na direcção certa.   David Vieira de Campos